15 outubro 2017

UM LIVRO INDISPENSÁVEL

       1. Que livro é esse que me leva a dizer que é mesmo indispensável? Se tenho de confessar que foi essa a convicção que a sua leitura me impôs, sei que o espaço desta crónica não é o mais adequado para a justificar. A verdade é esta: ajudou-me a diminuir ignorâncias que talvez não sejam só minhas; ofereceu-me o conhecimento de alguns percursos da Bioética que ajudam a vencer a ideia de que perante questões tão complexas, o mais razoável seria deixá-las no segredo dos especialistas.  
O título, que enche a capa dessa obra, revela, sem ambiguidades, o seu conteúdo: Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer. Destina-se a possibilitar um debate de cidadãos, esclarecido e fecundo.
O autor, Miguel Oliveira da Silva, é Professor Catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Foi, entre 2009 e 2015, o primeiro Presidente eleito do Conselho Nacional para as Ciências da Vida. Integra, por eleição, o Bureau da DH-Bioética do Conselho da Europa.
No passado dia 9, a obra foi apresentada, na Casa Museu Fundação Medeiros e Almeida, por José Barata-Moura e Anselmo Borges.
Ficou claro que as questões abordadas neste livro não deveriam deixar ninguém indiferente. Têm a ver com a dignidade humana de todos os cidadãos, do presente e do futuro. Vivemos num mundo global, mas que também parece cada vez mais fragmentado e não se prevê que se vá tornar mais estável.
Como reza um velho aforismo, o que a todos diz respeito deve ser tratado por todos. Segundo S. Tomás de Aquino, a virtude da prudência política – condição para intervir de forma esclarecida nas orientações e decisões da comunidade - não é uma exigência exclusiva de legisladores e governantes. É indispensável a todos os cidadãos.
Se a cultura activa das virtudes torna bons os seus praticantes e boas as suas acções, sem ela até as leis mais justas perdem vigor e eficácia na sua aplicação.
Para serem virtuosas, as opções e decisões políticas não podem dispensar o recurso a estudos adequados. Segundo o citado autor, o estudo, além de todas as experiências e dados recebidos dos investigadores, professores e educadores, exige sempre uma veemente aplicação da mente. Sem esse esforço não se consegue verdadeira autonomia pessoal. 
Não se deve confundir ética e política. Não esqueço, porém, que a política é uma ciência prática cujo objecto é o agir, algo complexo e mutável. A decisão prudencial ganha em associar a ética da convicção e a da responsabilidade, isto é, tem de saber calcular os riscos e as consequências das opções. As melhores intenções, sem políticas bem preparadas e executadas, alimentam as piores asneiras.
Tornou-se um hábito dizer mal da política e dos políticos, sobretudo dos que não são da nossa cor. Mas esquecer que nos pertence alterar rumos e métodos da prática política é uma forma de masoquismo. Um dos frequentes incitamentos do Papa Francisco aos cristãos incide, precisamente, sobre a importância da cura da intervenção política para que esta não seja guiada pelos interesses do Dinheiro que geram a economia que mata crianças e adultos e provoca os criminosos negócios das guerras, desgraça dos povos.
2. Na contra capa desde livro de Miguel Oliveira da Silva está escrita a sua motivação. Perante o alargamento de direitos individuais nos extremos da vida humana, somos responsáveis pelo modo como o Estado assegura ou não a protecção dos mais vulneráveis: os jovens produtos de tecnologias genéticas e reprodutivas e as pessoas humanas em sofrimento intolerável que reclamam querer morrer.
Como ser equitativo no acesso a estas tecnologias e qual é, aqui, a relação entre o Serviço Nacional de Saúde e o sector privado? Quando e como têm os pais a obrigação de assegurar que os seus filhos possam conhecer a verdade sobre a sua história biológica: quem lhes deu o esperma ou o óvulo, qual a mulher que os gerou e pariu, quantos meios-irmãos poderá ter?
O parecer dos peritos deve servir para pôr as pessoas a pensar, debater, informar, cogitar para não ser uma perfeita trivialidade.
Um debate sobre uma questão ética nunca está completamente encerrado. Por vezes, e ainda que de outro modo, há que retomar, periódica e recorrentemente, as mesmas interrogações e dúvidas. As leis bioéticas não podem prever todos os casos, todas as situações concretas, sobretudo quando se trata de novas tecnologias reprodutivas e genéticas que podem obrigar a uma reapreciação e eventual mudança legislativa[1].
3. É absolutamente impossível tentar resumir o conteúdo dos diferentes capítulos ou temas desta obra, embora fosse a melhor maneira de apresentar as razões que me levam a chamar-lhe um livro indispensável. Indispensável não é o livro. Indispensável é conhecer a história e os debates da bioética, em Portugal e nos outros países, para que seja possível uma participação democrática em assuntos que a todos dizem respeito.
Como já escreveu Anselmo Borges, o achismo é o inimigo do conhecimento e do debate entre cidadãos. Para encher os meios de comunicação - rádios, televisões, jornais, redes sociais - não é preciso conhecimento argumentado. Basta dar a ilusão que a verdade não tem interesse, tanto mais que a época da pós-verdade é o seu reino. Silêncio imposto sobre determinados temas já o conhecemos e ainda existe em muitos países. Mas agora, procura-se o mesmo resultado falando muito. Poucos dias depois de ter chegado a Nampula (Moçambique), e não sabendo nada de macua, passei por um grupo que falava e gesticulava alegremente. Perguntei a um rapaz macua, que sabia português, o que estava aquela gente a dizer com tanto entusiasmo. Resposta rápida: não estão a dizer nada, é só falar. Hoje em dia, e entre nós, em relação a muitos programas que pretendem ser de informação e debate, tenho a impressão de que também não dizem nada. É só falar. Seriam bem dispensáveis.
O que não se pode dispensar é o conhecimento da história da Bioética que – ao contrário da clássica Ética Médica até aos anos 70 do século XX – tem um outro horizonte temporal e outro alcance filosófico: a equação moral que não se esgota na imediatidade ou proximidade da relação quase sempre privada e individual médico-doente. Há um outro tempo, uma esfera pública e comum, transgeracional que pode mesmo afectar o futuro do planeta[2].
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 15.10.2017


[1] Cf. Miguel Oliveira da Silva, Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer, Caminho, Lisboa, pp 80-87; 114-124
[2] Cf. Obra citada pp 63-68

08 outubro 2017

Tranquilizar ou desassossegar Fátima? (2)

1. Um amigo, depois de ler o meu texto do domingo passado, pediu-me para deixar Fátima em paz. Depois da intoxicação mediática em torno do centenário, é saudável deixar arrefecer essas alucinações. Lembrei-lhe que ainda não se fez uma avaliação deste ano, pois ainda estão em curso preparações de novos congressos. A avaliação que já deveria ter sido feita é a da vinda do Papa Francisco a Fátima.
Paulo VI foi o primeiro Papa que veio a Fátima em circunstâncias que já foram analisadas de diversos pontos de vista. João Paulo II foi à Cova da Iria mais do que uma vez. Bento XVI presidiu à peregrinação de 12 e 13 de Maio 2010. Como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé já tinha serenado, do ponto de vista teológico, o empirismo que dominava a discussão sobre as aparições/visões.
O Papa Francisco veio como peregrino, a 12 e 13 de Maio 2017. Não trouxe uma rosa de ouro, não foi agredido nem miraculado em Fátima, não se ocupou com as narrativas sobre o inferno, o purgatório, a Rússia e a devoção dos primeiros Sábados. Não teve de fazer nenhuma das consagrações pedidas à Lúcia por N. Senhora. As consagrações que Ela exigiu, tantas vezes ensaiadas, já estavam finalmente aprovadas. Também não havia mais nenhum segredo a revelar. A devoção ao rosário, em 1917, já tinha séculos. A canonização da Jacinta e do Francisco tanto poderiam ter sido feitas na Cova da Iria como na Praça de S. Pedro. Então não veio cá fazer nada?
Em duas breves homilias virou tudo do avesso. Em Fátima, a grande preocupação eram os sofrimentos de Deus, dos corações de Jesus e de Maria por causa dos nossos pecados. Era preciso multiplicar os sacrifícios para reparar o Céu ofendido. O Papa conhecia esse mundo que não é o dele. De que se lembrou? Escolheu, das várias narrativas locais, uma que lhe permitiu introduzir um novo horizonte. «Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre numa Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?»
 Voltou-se, então, para os seus companheiros de peregrinação: “Irmãos e irmãs, obrigado por me terem acompanhado! Não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas. Sob o seu manto, não se perdem; dos seus braços, virá a esperança e a paz que necessitam e que suplico para todos os meus irmãos no Baptismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados.”
Não se pode confundir esta passagem com mais uma beatice mariana. Bergoglio desvia o olhar dos peregrinos para a terra de todos os irmãos no Baptismo que envolve católicos, protestantes, membros das Igrejas Orientais e todos os que se reconhecem no Espírito de Jesus Cristo. Não são apenas os que vão a Fátima! Mas não fica por aí. Quem reconhecesse como irmãos apenas os que se dizem cristãos era um traidor ao Evangelho, um anti-ecuménico. Por isso, o Papa acrescenta: e de todos os irmãos em humanidade! Este universalismo podia ficar numa abstracção. Mas ele concretiza: os nossos irmãos em humanidade que mais precisam de cuidados especiais são os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados.
Importa meditar nesta redobrada tentativa de evangelizar a chamada espiritualidade de Fátima. Muito se repetiu que Fátima não era mais do que o Evangelho. Essa repetição servia, precisamente, para o esquecer. A peregrinação do Papa Francisco foi intencionalmente missionária: procurar evangelizar Fátima, para que ela se transforme num foco de evangelização. Repare-se neste texto de antologia:
“Queridos irmãos, rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que é Deus quem nos vale.
Pois Ele criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um. Ao «pedir» e «exigir» o cumprimento dos nossos deveres de estado (carta da Irmã Lúcia, 28/II/1943), o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida”. (…)
«Sob a protecção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor.»
2. O que nunca se poderia esperar que um dia viesse a ser proclamado em Fátima, por um Papa, aconteceu numa homilia de completo desassossego das untuosas orações e invocações do costume. Maria, a subversiva do Magnificat, que Maurras agradecia que fosse cantado em latim para que ninguém o pudesse entender, apareceu, finalmente, em Fátima:
 “Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma «Mestra de vida espiritual», a primeira que seguiu Cristo pelo caminho «estreito» da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora «inatingível» e, consequentemente, inimitável? A «Bendita por ter acreditado» (cf. Lc 1, 42.45) sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma «Santinha» a quem se recorre para obter favores a baixo preço? A Virgem Maria do Evangelho, venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjectivas que A vêem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar: uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso; mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós? Grande injustiça fazemos a Deus e à sua graça, quando se afirma, em primeiro lugar, que os pecados são punidos pelo seu julgamento, sem antepor – como mostra o Evangelho – que são perdoados pela sua misericórdia! Devemos antepor a misericórdia ao julgamento e, em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia”.
3. Como essas homilias do Papa são textos e proclamações de desassossego, o método para que fique tudo como dantes, na tranquilidade de quem desvia os olhos da terra, é preciso não as ler, não as meditar, não as propor. Fazer de conta que foram desabafos de um simples peregrino habituado a ter os olhos abertos para todas as periferias existenciais.

Este Papa é um pouco estranho. Parece não acreditar que as viagens de uma imagem peregrina de N. Senhora possam substituir uma Igreja de saída. Para ele tem de ser um hospital de campanha, pronto a socorrer os que a indiferença deixou abandonados nas valetas da vida. E para nós?
Frei Bento Domingues O.P.
in Público 08.10.2017

01 outubro 2017

Tranquilizar ou desassossegar Fátima? (1)

      1. Fátima nunca mais é o título de um livro militante do padre Mário de Oliveira. Fátima cada vez mais, passados 100 anos, goste-se ou não, é o panorama do que está acontecer. Porque será?
    Conheço Fátima desde 1947, onde também vivi, em épocas bastante diferentes. Contactei, muitas vezes, com os familiares dos pastorinhos, a começar pelos pais da Jacinta. Ao longo do tempo, fui lendo o que se escrevia sobre o fenómeno. Já apresentei, até por escrito, as minhas impressões que não foram sempre as mesmas.
     O primeiro sentimento foi de algo banal e triste, estranho e inverosímil. Como era possível que Nossa Senhora viesse pedir mais sacrifícios a uns pobres e inocentes pastorinhos, para reparar um Deus ofendido por pecados que não eram deles? Porque não foi ela ter com esses que cometiam pecados tão grandes que deixavam o coração de Deus em sangue? Um colega mais velho respondeu-me: na religião isto é tudo ao contrário. Talvez, mas não é justo!
      Tentando, depois, entender o que tudo aquilo tinha, e tem, de assustador e cordial, nos limites das catequeses primárias e dos crescentes movimentos devocionais da época, as perplexidades aumentaram.
      Dizer que se trata de um dos fenómenos religiosos mais relevantes do seculo XX, nascido no seio do catolicismo popular português, enquadrado pela hierarquia eclesiástica, desenvolvido no quadro de uma luta católica pela liberdade da Igreja e num quadro mundial de guerras, a abordagem de Fátima dispõe, hoje, além da documentação de propaganda, apologética e contestatária, de documentação crítica e de obras de interpretação, de diversa índole, e fácil acesso. Desse conjunto, saliento: A nível da História, destaco Fátima do Bispo Carlos Azevedo[1]. Com a Senhora de Maio[2], António Marujo e Rui Paulo da Cruz, conseguiram uma Fátima, a muitas vozes, dissonantes. O pequeno Dicionário de Helder Guégués[3] revela-se muito útil. Ana André e Sara Capelo registaram as vozes dos que percorrem quilómetros e quilómetros, a pé, até ao Santuário[4]. Fátima é diferente para todos.
       Podemos saber de 1917 a 2017 – sem contar com as anteriores narrativas das aparições angélicas - como tudo aconteceu e se desenvolveu ao longo de um século, mas continuo longe de qualquer síntese explicativa. Tenho, pelo contrário, outra pergunta: os cenários espectaculares e as publicações que prepararam e acompanham o ano de 2017 vão coroar ou desassossegar uma narrativa centenária?
      2. Dir-se-á que a resposta a essa pergunta exige ter em conta outras que não cabem nesta crónica, como por exemplo: que ganhou e que perdeu o catolicismo português com Fátima? É uma questão real, mas carregada de ambiguidades, pois, entre os golpes militares de 1910, de 1928 e de 1974, Portugal mudou e a relação com o fenómeno religioso também.
O Concílio Vaticano II é a data incontornável da Igreja no século XX. Em certos países foi preparado por diversos movimentos, nomeadamente, de novas experiências ao nível da evangelização, da pastoral, da liturgia e do debate teológico. Os representantes episcopais da Igreja portuguesa apresentaram-se sem propostas de alteração do rumo do catolicismo. Alguns tiveram o desplante de afirmar que nós já estávamos muito à frente desse concílio.
      O Vaticano II deixou que ficassem em aberto, para o pós-concilio, várias questões, entre elas, as da moral familiar, dos ministérios ordenados e do exercício dos direitos humanos no interior da Igreja. O resultado foi dramático. Em vez da alegria da evangelização do mundo contemporâneo, em todos os continentes, Roma ocupou-se em ocultar as reformas urgentes no Vaticano e em impedir o debate aberto da moral familiar, da teologia da libertação e das experiências da inculturação da Fé e de abrir o debate sobre os ministérios ordenados das mulheres e dos homens casados. A primavera que João XXIII desejava transformou-se num prolongado inverno, um reino da esquizofrenia: por um lado, o impulso do Concílio e por outro uma série de medidas para o fazer esquecer.
      É conhecida essa história que a eleição do Papa Francisco tornou ainda mais evidente.
      3. Há quem diga que Fátima nos salvou. Quando uns dizem que nos livrou da II Guerra Mundial, outros apressam-se a lembrar a perda do império, as guerras coloniais, a miséria do povo e a imigração acelerada. Não vou entrar por aí. Seria demasiado fácil ter umas aparições à mão que nos servissem para resolver todos os problemas do país e do mundo. Uma propaganda dessas só poderia servir para desacreditar Fátima em toda a linha. Seria uma pseudo-substituição do país e das suas instituições.
Importa sublinhar que conseguiu uma grande vitória sobre a ideia de que a religião e a Igreja Católica, em Portugal, estariam no fim, em poucas décadas. Fátima é um grande centro de atracção no campo religioso. Não resolveu os nossos problemas sociais, económicos e políticos, nem devia. Realizou o melhor da laicidade: Portugal é um país laico, mas permite que todas as religiões possam aqui respirar à vontade.
      Fátima desenvolveu-se à margem da renovação cultural do país. Os grandes criadores da nossa literatura do século XX viveram divorciados de Fátima e Fátima deles. Mundos estranhos, salvo raríssimas excepções. Por outro lado, a cultura religiosa popular, catalisada pelos muitos santuários do país, onde convergia a devoção peregrinante e a romaria, a religião e a cultura da alegria estão bastante anestesiadas.
      Fátima vive da libertação interior de cada peregrino e isso é algo admirável e insubstituível. Fazer desse caminho o todo da inculturação da fé cristã, é o culto de uma espiritualidade de olhos fechados.
      Fátima precisa de se tornar o novo livro do Desassossego.
      Frei Bento Domingues O.P.
      in Público 01.10.2017




[1] Fátima. Das visões dos pastorinhos à visão cristã, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2017. Já tinha dirigido o Dicionário e História Religiosa de Portugal, presidido à Comissão Científica da Documentação Crítica de Fátima e coordenado, com Luciano Cristino, a Enciclopédia de Fátima. Conseguiu, em pouco mais de 200 páginas, um texto que se recomenda pelo seu rigor e sobriedade.
[2] Temas e Debates, Círculo de Leitores, Lisboa, 2017.
[3] Factos e Figuras de Fátima. Um Dicionário, Clube do Livros, Lisboa, 2017
[4] Peregrinos, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, 2017. 

24 setembro 2017

UM DEUS DISTRAÍDO?

      1. Não têm conta as vezes que me fizeram, e fazem, a pergunta do título desta crónica. Sei que não tenho o exclusivo.
Não escondo que me divertem as pessoas religiosas e teólogas que dão a ideia – pelo que dizem e escrevem, pelo que aconselham ou mandam – que conhecem a vontade de Deus e os seus misteriosos caminhos. A tudo dizem: foi a vontade  de Deus, mesmo quando essa expressão, pretensamente piedosa, é o pior insulto que Lhe podem fazer.
Por outro lado, são, por vezes, as mesmas pessoas que, pelas suas repetidas e abundantes orações, supõem que Deus ande mal-informado. As chamadas orações dos fiéis nas Celebrações Eucarísticas, mais ou menos gemidas, tentam lembrar a Jesus a sua responsabilidade pela péssima situação mundial.
Parece que todas as religiões, ou a maioria, têm fórmulas e livros de orações. Basta ir ao Google e, a partir da palavra oração, podemos ficar minimamente referenciados acerca desse mundo, ora sublime ora ridículo.
A nossa ligação fervorosa a Deus deveria estar atenta à nossa radical ignorância. Nunca me posso esquecer que S. Tomás de Aquino, depois de expor a sua epistemologia teológica e de apresentar as razões que tinha para afirmar que Deus existe, empenhou-se em mostrar, imediatamente, que não podemos saber como é Deus. A teologia dele é, sobretudo, uma luta contra as idolatrias que se insinuam em todas as atitudes e discursos religiosos.
Julgo que a religião – embora seja uma palavra de origem latina – nasce da consciência, mais ou menos explicita, do ser humano como realidade limitada. Precisa do outro para nascer, para crescer, para viver e para morrer. Não é auto-suficiente. É, por natureza, carente de cultura e de afectos. É uma realidade em permanente processo. Vai sendo através dos mil contactos cultivados ao longo da vida. É, estruturalmente, um ser aberto. Neste mundo multicultural e multirreligioso desenvolve-se bem ou mal, na recusa ou na aceitação. Quando se fecha aos outros, perde-se e afoga-se em si mesmo.
As boas relações humanas são as de acolhimento e cooperação. As más são as de dominação psicológica, económica, política e religiosa. Por isso, a pergunta mais sagrada, mais religiosa, em todas as situações, talvez seja esta: em que posso ajudar?
Não é por acaso que a primeira grande pergunta que Deus faz, logo no Génesis[1], seja esta: que fizeste ao teu irmão e seja também a última que julgará a nossa história, segundo o Evangelho de S. Mateus[2].
Mas, então, devemos ou não rezar?
2. Não faltam, mesmo no Novo Testamento, recomendações de que devemos rezar sempre e em toda a parte. Não de qualquer maneira. Nem foi a primeira preocupação de Jesus. Consta, no Evangelho de S. Lucas, que os discípulos se sentiam um grupo um bocado abandonado, nesse aspecto. «Estando (Jesus) num certo lugar a rezar, ao terminar, um dos seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a orar como João ensinou aos seus discípulos[3]». Daí, resultou uma longa conversa e uma parábola que termina de forma paradoxal: a única coisa garantida é que o Pai dos Céus dará o seu Espírito aos que o pedirem. S. Mateus põe na boca de Jesus a recomendação: «nas vossas orações não useis de vãs repetições, como fazem os gentios, porque entendem que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade, antes de lho pedirdes». De facto, deixou-nos apenas pistas muito gerais, no Pai-Nosso[4].
Estas indicações básicas atribuídas a Jesus deveriam merecer mais atenção. A Liturgia das Horas, rezadas em coro em muitas congregações religiosas, serve-se da recitação dos Salmos do Antigo Testamento. É precisa uma grande dose de paciência para aguentar a divisão entre o povo de Deus e os outros povos que não sabemos de quem são, geralmente inimigos. Esse Deus tem o encargo de defender e ajudar o seu povo e de atacar os outros povos. É um mundo pouco edificante de amigos e inimigos. É preciso, depois de Jesus Cristo, estar sempre a fazer descontos na oração.
Fazem parte de cenários em que se põe na boca do Senhor, Deus de Israel, uma narrativa na qual, depois de muitas bem-feitorias ao seu povo, que, finalmente, atravessou o Jordão e chegou a Jericó, faz esta declaração fantástica, coroa de muitas outras: «combateram contra vós os que dominavam a cidade – os amorreus e os perezeus, os cananeus e os ititas, os girgasitas, os hevitas e os jebuseus – mas Eu entreguei-os nas vossas mãos. (…) Não foi com a vossa espada nem com o vosso arco que tudo isto foi feito. Dei-vos uma terra que não cultivastes, cidades que não construístes e onde agora habitais, vinhas e olivais que não plantastes e de que vos alimentais».[5]
Pode um cristão rezar a um Deus destes?
3. Anda o Papa Francisco a dizer que não se pode matar em nome de Deus e, depois, louvá-Lo por ser um terrorista, porque eterno é o seu amor?
O diálogo inter-religioso, para não ser um teatro de mau- gosto, deve incluir a crítica das expressões religiosas que ofendem a Divindade maltratando os seres humanos.
Em Assis, já diversas vezes, os representantes de diferentes religiões foram rezar juntos. Nenhum tem o direito de criticar a forma de rezar dos outros, mas todos se deveriam sentir responsabilizados a contribuir, no âmbito da sua religião, para reverem as respectivas formas de rezar.
Por outro lado, se o ser humano é religioso pela interpretação que faz do seu limite, tem de cuidar de não transpor para Deus a sua responsabilidade. Quando se diz, de forma metafórica, que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, isso significa que o ser humano, por ser livre, é responsável pelo seu mundo, pela casa comum.
O Papa Francisco não se cansa de repetir que já estamos, de modo fragmentado, na terceira guerra mundial. Existem sistemas económicos que devem fazer a guerra para sobreviver. Ao fabricar e vender armas sacrificam, nos balanços económicos, o ser humano no altar do deus dinheiro.
Gosto da sua forma de rezar: Queridas irmãs e irmãos, eleva-se de todos os lugares da terra, de cada povo, de cada coração e dos movimentos populares, o grito da paz: guerra, nunca mais![6]
Não é a um Deus distraído que ele reza. Reza para diminuir o mundo dos distraídos.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 24.09.2017


[1] Gn 4, 1-15
[2] Mt 25, 31-46
[3] Lc 11, 1-13
[4] Mt 6, 5-15
[5] Cf. Js 24, 1-13
[6] Politique et société, du Pape François (Rencontres avec Dominique Wolton), Editions de L’Observatoire/Humensis, 2017, p. 11. 

17 setembro 2017

ESTE PAPA É UMA DECEPÇÃO!

       1. Num dos períodos de conflito armado mais ameaçador e de medo generalizado, dei aulas e fiz conferências de teologia em Bogotá e Medellin. Depois de 50 anos de horror, comoveu-me a coragem e o empenhamento do Papa Francisco, no meio de muitas dificuldades locais, em intensificar e tornar irreversível o processo de paz, na Colômbia.
Bergoglio não foi celebrar um país reconciliado, sem traumas nem ressentimentos. Quis contribuir para que  todos desejem que o diálogo e a reconciliação se tornem o estilo de vida do país.
É difícil aceitar que o ressentimento do ex-Presidente Álvaro Uribe – que se confessa um fervoroso católico – o tenha tornado alérgico à iniciativa do Papa que declarou aos colombianos: foi demasiado o tempo que passaram no ódio e na violência; não queremos que mais nenhuma vida seja anulada ou restringida. A conversão não é um acontecimento impossível.
Bergoglio não escolheu apenas o nome de Francisco de Assis. Em todo o lado, na Europa, no Oriente, em África, nas Américas, na Ásia, a sua vontade é realizar a oração que dele recebeu: Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz; Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver discórdia, que eu leve a união; (…); Pois é dando que se recebe; É perdoando, que se é perdoado; é morrendo que se vive para a vida eterna.

Mas se este é o espírito e o comportamento do Papa, porque suscitará ele tanta oposição?
2. Uma revista jesuíta[1] resolveu divulgar um texto de um biblista italiano, Alberto Maggi, membro da Ordem dos Servos de Maria, intitulado: Desilusão. O autor desenhou uma tipologia que alguns julgarão simplista, mas talvez seja apenas tão exacta que lhe baste ser simples.
Segundo ele, tudo começou com um murmúrio discreto, que se tornou uma queixa e se foi ampliando. Agora, a resistência já é declarada: um confronto público, por vezes uma provocação acompanhada de ameaças de um cisma.
Francisco, em pouco tempo, conseguiu decepcionar quase todos. Esta decepção de ressentimento encapotado converteu-se em algo que está à vista de quem quiser ver. Alguns dos cardeais que o elegeram estão desiludidos. Parecia o homem ideal, sem esqueletos nos armários, doutrinalmente conservador, mas aberto às novas ideias. Com ele poder-se-ia garantir um tempo de paz no meio dos escândalos da Igreja, um período sem turbulências nem divisões.
Nunca imaginaram que Bergoglio tivesse a intenção de reformar a Cúria Romana, de acabar com os seus privilégios e fustigar as vaidades do clero. A sua presença, simples e espontânea, é uma acusação constante aos prelados pomposos, faraónicos, anacrónicos, cheios de si mesmos.
Os bispos carreiristas estão decepcionados. A nomeação para uma cidade era só um passo para uma posição de maior prestígio. Estavam prontos a clonar-se com o pontífice de serviço, imitá-lo sempre em tudo, desde os gestos externos até aos doutrinais, fazer qualquer coisa para lhe agradar e obter os seus favores. Agora, vem este Papa e convida os bispos ambiciosos e vaidosos a ter o cheiro das suas ovelhas… Que horror!
Uma parte do clero também está decepcionada. Esse clero sente-se perdido. Criado no estrito cumprimento da doutrina, indiferente ao povo de Deus, já não sabe que fazer. Tem de recuperar um sentido de “humanidade” que o escrupuloso cumprimento das normas da Igreja tinha atrofiado. Pensava que estava, como “sacerdote” (presbítero), acima dos fiéis e, agora, este Papa convida-o a descer e a colocar-se ao serviço dos últimos…
Decepcionados também estão os leigos empenhados na renovação da Igreja, assim como os tradicionalistas super apegados ao passado. Para estes últimos, o Papa é um traidor, a ruína da Igreja. Para os primeiros, não está a fazer o suficiente, não muda nem as regras nem as leis que já não estão em sintonia com os tempos, não legisla, não usa a sua autoridade como “comandante” da Igreja…
Os mais entusiasmados com ele são os pobres, os marginalizados e invisíveis e, também, aqueles cardeais, bispos, padres e leigos que, durante décadas estiveram afastados por causa da sua fidelidade ao Evangelho, encarados com suspeita e perseguidos por causa da sua mania louca de ligar mais à Sagrada Escritura do que à tradição.
Aquilo que só haviam esperado, sonhado ou imaginado converteu-se numa realidade com Francisco, o Papa que fez descobrir ao mundo a beleza do Evangelho.
3. Alberto Maggi não tinha de falar de tudo. Os leitores portugueses podem e devem completar os mapas locais e o mundo das suas relações cujas percepções serão, naturalmente, muito variadas.
Pelo que ouço dizer e observo, em Portugal, existem movimentos e orientações paroquiais, discretamente empenhados em contrariar as consequências dos gestos, das palavras e das intervenções do Papa. Quando ele diz que a reforma litúrgica é irreversível, esses movimentos, organizações e personalidades não fazem declarações públicas de que estão contra ela. Adoptam gestos e devoções que a contrariam. Isto sem falar nos textos que escrevem para mostrar que o Papa é um homem de boa vontade, mas incompetente do ponto de vista teológico, para orientar a Igreja. O que lhe falta em teologia sobra-lhe em atrevimento e falta de respeito pelo Direito Canónico.
No meu ponto de vista, seria péssimo que os gestos e as atitudes do Papa não fossem discutidos. O uso da liberdade de expressão na Igreja é um direito e um dever. Aliás, é o que este Papa mais exerce e mais deseja para todos. O que é inaceitável é que sejam aqueles que sempre atacaram a liberdade no passado, usem todos os meios para restaurar um tempo em que só eles e os da sua tendência tinham direito de expressão. Servir-se de um tempo de liberdade para a destruir, não é o caminho da ética humana e cristã mais respeitável.
P.S. Foi no dia em que escrevi esta crónica que soube da morte do Bispo do Porto, António Francisco dos Santos, o Bispo português de quem mais gostava e que sempre me acolheu com muita amizade.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 17.09.2017

12 setembro 2017

Pope Francis and his Council

      Duas cartas que recebemos do WOW, Women's Ordination Worldwide

      Feast of St. Augustine, 2017

      Dear Pope Francis,

I hope you that are well and that your officials let you receive this letter. I pray for you. Your obvious concern for the poor, for the environ-ment, and for reform in our church is more than wonderful.
Enclosed again are two letters about the ordination of women: the first is sent to each member of the Council of Cardinals with whom you are soon meeting; the second is a letter for background that I mailed to all the ordinaries of the United States at the beginning of Lent in 2014.
When you talked about the need for honest dialogue on the issues that we face as a church, it was initially heartening. You kept insisting: “dialogue, dialogue, dialogue.” In fact, you said: “dialogue fearlessly.”
Unfortunately, however, there is not now, nor has there ever been, fearless dialogue—let alone anything gender inclusive—on the ordination of women, even though this issue is arguably the one most crucial.
In your care for God’s people, can the collaboration between bishops and theologians at Vatican II be a model? As our Supreme Bridge Builder can you empower an up-to-date synodal dialogue now so tragically absent and so desperately needed?
How can our church be whole if women are “not fully in the likeness of Jesus”? Not to affirm the body-and-soul wholeness of women—leaving their integrity ignored, disparaged, and denied—is a crushing injustice that stifles the Spirit and gives a lie to the Good News.
Is it wrong to hope that our ecclesial structures—crumbling in stone yet so powerfully ensconced in patriarchal privilege—can come to embrace an intelligent view of gender? Is it possible to see that integrity and mutuality are embodied by grown women as well as grown men?
Pope Francis, can the Vatican’s understanding of women finally take a centuries-leap forward? Can justice and mercy actually wed?
Sincerely,
John J. Shea, O.S.A.
Copy: Each Member of the Council of Cardinals

      Feast of St. Augustine, 2017

      Dear Cardinal Parolin,

I am writing again to you and to each of the members of the Council of Cardinals to ask you to directly address in your September meeting the church’s ongoing decision to see women as lacking the body-and- soul integrity to be ordained to the priesthood. This is a critical issue of structural reform—ecclesia semper reformanda. It radically warps our church’s identity and painfully cripples its mission in the world.
Of all the things that Pope Francis has said and done, the way he opened the Synod on the Family in 2014 was perhaps the most extraor-dinary. He asked the bishops to speak “freely,” “boldly,” and “without fear.” This exhortation is quite shocking: he had to ask his fellow bish-ops—grown men and the church’s teachers—to speak honestly to each other. Given a church so incredibly challenged by dialogue, however, his exhortation was not only necessary but was, at lease at the time, some small sign of hope.
If you believe that the ordination of women to the priesthood is vital for the integrity, the mutuality, the maturity, and the viability of our church, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If you know from your own experience that any given woman is as religiously mature and able to provide pastoral care as any given man, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If you find there is nothing in Scripture or tradition that that pre-cludes the ordination of women to the priesthood, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If seeing women and men through a complementarity lens or in light of precious patriarchal symbolism is not ad rem to women’s worthi-ness of ordination, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If you find the 1994 letter, Ordinatio Sacerdotalis: 1) was the fruit not of dialogue but of doctrinal fiat; 2) was written directly in the face of—and arguably to cut off—serious scriptural-theological dialogue actu-ally taking place; and 3) then mandated that no dialogue—let alone any-thing fearless or gender-inclusive—is allowed going forward, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If you see that the letter, Ordinatio Sacerdotalis, is an historical in-terpretation of ordination rather than one that is theological, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If the theological explanation actually put forth by the Vatican in the 1970s and 1980s—that women cannot be ordained because they are “not fully in the likeness of Jesus”—would be silly if it were it not so he-retical, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If seeing women fully created in the image and likeness of God does not mean that they are fully created in the image and likeness of Jesus—if such Trinitarian theology is puzzling, incongruous, or totally bizarre—I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If the church’s current stance effectively undermines the Three-in-Oneness of our God—if a huge patriarchal beam is stuck in the church’s eye, worshipping the Father as genetically male, the Son as genetically male, and, of course, the Holy Spirit as genetically male—I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If you are concerned about the adult faithful leaving the church in droves because women are not worthy of priesthood—if you understand that “a patriarchal Jesus” severs the roots of inclusion, respect, and trust in the church—I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If it is clear that the church’s opposition to the ordination of women is taken—inside and outside the church—as affirming women’s inferiority and justifying domestic violence, infanticide, trafficking, and many other atrocities, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
If you want bishops to work now in a synodal way with theologians and the faithful—under the aegis of a genderless Spirit—to affirm the body-and-soul integrity of women and to heal our stammering, stolid, and sexist church, I ask you to speak freely, boldly, and without fear.
Cardinal Parolin, how long will this temporizing go on? Is injustice to women to cripple the Christian message forever? Like the reformation of inclusion in the infant church, can you and the other bishops see, hear, and name what Pope Francis cannot see, hear, and name? Will you speak freely? Will you dialogue boldly and without fear?
Sincerely,
John J. Shea, O.S.A.
Copy: Pope Francis

30 julho 2017

JESUS NÃO GOSTAVA DE BROA? (2)

1. Vivemos, hoje, um momento de extraordinárias possibilidades na Igreja Católica e o Papa Francisco é, a muitos títulos, uma bênção mundial.
Os participantes no G20, em Hamburgo, nos dias 7 e 8 de Julho, tinham um tema: “Dar forma a um mundo interligado”. Na sua mensagem, o Bispo de Roma lembrou quatro princípios de acção, recolhidos da sabedoria multissecular, para a construção de sociedades fraternas, justas e pacíficas: o tempo é superior ao espaço; a unidade prevalece sobre o conflito; a realidade é mais importante do que a ideia; o todo é superior às partes.
Já tinha assumido essa sabedoria no seu programa pastoral Evangelii gaudium, pois a Igreja não deve aprender apenas na escola da Bíblia e das suas tradições, mas na de todos os povos e culturas, do passado e do presente. Para poder ser “mãe e mestra”, tem de ser filha e aluna atenta a todos os mundos. Antes de falar é necessário ouvir, como indica o ritual do Baptismo.
Na sua mensagem aos mais ricos e poderosos, Bergoglio abordou cada um desses temas de forma extremamente rigorosa e concreta, mas sempre com um objectivo muito preciso: Dar prioridade absoluta aos pobres, aos refugiados, aos sofredores, aos deslocados e aos excluídos, sem distinção de nação, raça, religião ou cultura e rejeitar os conflitos armados.
Possibilidades semelhantes tinham sido abertas pelo Papa João XXIII, ao convocar o concílio Vaticano II (1962-1965), uma espantosa primavera traída, por algo que ainda hoje é inquietante: o adiamento da reforma das mediações concretas e a sua substituição por remendos de pano velho e irrecuperável.
A decepção criou gerações de católicos decepcionados, “não praticantes”, periféricos e um catolicismo do abandono da Eucaristia, cuja gravidade está ainda longe de ser reconhecida. Pela longa cegueira e medo de se tocar na Cúria, foi impedida a reforma radical dos ministérios ordenados que continua a ser uma urgência adiada.
Foi-se pronto a impedir a ordenação das mulheres, invocando razões teológicas ininteligíveis. Para os homens casados, dizem que não há nenhum obstáculo teológico, mas o resultado é o mesmo. Como o actual modelo de acesso a esses serviços está falido, os dons ministeriais de serviço sacramental da Igreja não têm quem os possa receber.
Em várias dioceses, o clero das Congregações religiosas vai procurando tapar o sol com a peneira, traindo a sua vocação específica. Certas Congregações femininas, multiplicando retiros e cursos de formação, ao rejeitarem as transformações das suas estruturas, estão em progressiva e inútil agonia.
2. A Igreja católica não pode prescindir das mediações sacramentais e litúrgicas. Fazem parte das celebrações existenciais da Fé. O modo como celebra não é indiferente. Celebrar mal é pior do que não celebrar: fomenta alergias inúteis. O domingo, na linguagem cristã, não pertence ao “fim de semana”, mas à grande festa do seu primeiro dia. Nasceu como possibilidade, muito bela, de rejuvenescer e transformar a vida, resistindo às tendências negativistas e niilistas.
A religião ética é uma forma de resistência à alienação e ao pessimismo. É um protesto para abrir caminhos na floresta dos enganos. Por isso, a experiência da finitude é caminho de abertura à transcendência, que se exprime, sobretudo, na linguagem simbólica de gestos e palavras.
3. Tomás de Aquino, na primeira fase do seu ensino, estava marcado por uma concepção dos Sacramentos como causas da graça. Na Suma Teológica abandonou essa perspectiva e situou os Sacramentos no mundo da simbologia. São essencialmente signos, sensíveis, terrestres da graça actuante de Cristo. É uma mudança radical que ainda hoje está longe de ser assumida em todas as consequências. O primeiro cuidado com a sua celebração não é a fidelidade às rúbricas de um ritual, mas a realização de uma festa significativa da Fé pelo envolvimento de todos os participantes, mulheres e homens, grandes e pequenos.
É tríplice a sua significação: remetem para todo o percurso de Jesus Cristo até ao dom do Espírito Santo à Igreja, mas não são uma romagem de saudade, não fixam a comunidade naquele tempo. Cristo ressuscitado não pode ser amputado da sua vida terrestre, mas é celebrado como presença actual e transformante da comunidade, abrindo-lhe um futuro de esperança.
Seria engano ver nesta estrutura simbólica – causam o que significam – apenas actos de Cristo, como um automatismo ritual. Não se pode esquecer a correlação íntima entre essa actuação e as experiências de vida da assembleia celebrante. Estas são essenciais ao acontecimento sacramental e precisam de ter expressão pública.
Dizer que foi Cristo que instituiu os sacramentos e, especialmente, a Eucaristia, não se pode pensar como se ainda estivéssemos no mundo cultural da época de Jesus. Pensar dessa maneira é amputar o cristianismo da sua significação universal e da sua capacidade de inculturação em todos os povos e culturas. Quem, no seu perfeito juízo, pode hoje supor que na chamada celebração da última Ceia, Jesus tenha dito: fazei isto em memória de mim, mas só com pão de trigo, ázimo e a bebida só pode ser vinho?
Dir-se-á que hoje os comerciantes do trigo podem assegurar esse cereal em qualquer parte do mundo. Não tenho dúvidas. Todos sabemos das imposições culinárias da grande indústria. Não me parece que seja essa a missão da Igreja.
A simbólica da Eucaristia é a mesa partilhada, por isso, quando se convida alguém para jantar não se lhe pode dizer: vem, mas não comas.
Uma das grandes tarefas das Igrejas locais consiste em exprimir a identidade da Fé cristã nas linguagens das suas culturas.
Sarah, com as suas exigências culinárias, mesmo com risco para a saúde, anulou a simbólica essencial da Eucaristia, como mesa cristã de todos os povos. A base dos Sacramentos é terrestre, é sensível, mas é a sua tríplice significação do mistério cristão que mais conta. O cardeal atirou fora a simbologia e ficou, apenas, com as coisas, retirou-se da sacramentalidade.
Não sei se Jesus gostava ou não de broa. Talvez até nem soubesse que existia. Mas imaginar que ficaria atrapalhado, nos lugares em que o trigo não é o principal alimento, em celebrar com broa ou com arroz é duvidar do poder de Cristo.
Sou levemente alérgico a estas crónicas durante o mês de Agosto. Até Setembro.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 28.07.2017 

23 julho 2017

JESUS NÃO GOSTAVA DE BROA? (1)

        1. A interrogação desta crónica tem raízes ocultadas e persistentes na teologia dos sacramentos. Regressou devido a graves problemas alimentares e simboliza a marginalização de questões abafadas na reflexão e na prática da inculturação da fé cristã. Saltou para aqui por alguma falta de humor.
       O Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos dirigiu uma Carta aos Bispos diocesanos – ou àqueles que, por direito, lhe são equiparados – para lhes recordar o dever de vigiarem a qualidade do pão e do vinho destinados à Eucaristia e à idoneidade daqueles que os fabricam. Um amigo, pouco versado na linguagem litúrgica, reagiu: querem ver que a ASAE já chegou à Missa!? Acrescentei: ou será que já andam para aí a celebrar com broa de milho?
      Um padre, muito zeloso, não gostou nada dessas mansas piadas: não admito que se brinque com uma das realidades mais sérias da nossa fé!
        Quando tentei mostrar que a Carta não era sobre a Eucaristia, mas apenas sobre a qualidade do pão e do vinho que lhe são destinados, a indignação não abrandou, pois estaríamos a desrespeitar uma zona sagrada que a protege. Não melhorei o ambiente ao dizer que antes do problema da qualidade do pão destinado à Eucaristia, existe um imperativo mais sagrado e mais cristão: lutar para que todos tenham o pão de cada dia, o alimento suficiente, como consta da mensagem do Papa Francisco ao Presidente da FAO. Lembrou-me, com razão, que essa não era a preocupação do Cardeal Sarah.
      Era preciso regressar a uma pergunta banal: que terá acontecido para motivar um texto cardinalício sem qualquer novidade?[1].
       A explicação é oferecida numa linguagem eclesiástica que alguns julgarão ser altamente ridícula. “Enquanto até agora, de um modo geral, algumas comunidades religiosas dedicavam-se a preparar com cuidado o pão e o vinho para a celebração da Eucaristia, hoje estes vendem-se, também, em supermercados, lojas ou mesmo pela internet. Para que não fiquem dúvidas acerca da validade desta matéria eucarística, este Dicastério sugere aos Ordinários que dêem indicações a este respeito; por exemplo, garantindo a matéria eucarística mediante a concessão de certificados.
       «O Ordinário deve recordar aos sacerdotes, em particular aos párocos e aos reitores das igrejas, a sua responsabilidade em verificar quem é que fabrica o pão e o vinho para a celebração e a conformidade da matéria (…)».
       A Carta funciona como um puro acto de memória. As normas acerca da matéria eucarística já estavam estabelecidas: 
       «O pão que se utiliza no santo Sacrifício da Eucaristia deve ser ázimo, unicamente feito de trigo, confeccionado recentemente, para que não haja nenhum perigo de que se estrague por ultrapassar o prazo de validade. Por conseguinte, não pode constituir matéria válida, para a realização do Sacrifício e do Sacramento eucarístico, o pão elaborado com outras substâncias, embora sejam cereais, nem mesmo levando a mistura de uma substância diversa do trigo, em tal quantidade que, de acordo com a classificação comum, não se possa chamar pão de trigo (…).
       «O vinho que se utiliza na celebração do santo Sacrifício eucarístico deve ser natural, do fruto da videira, puro e dentro da validade, sem mistura de substâncias estranhas… (...) Não se deve admitir, sob nenhum pretexto, outras bebidas de qualquer género, pois não constituem matéria válida»[2].
       2. Esta pureza ritual embate em graves problemas de saúde reconhecidos no citado documento. De facto, a própria Congregação para a Doutrina da Fé já tinha indicado as normas para as pessoas que, por diversos e graves motivos, não podem consumir pão normalmente confeccionado ou vinho normalmente fermentado[3]:
     «As hóstias completamente sem glúten são matéria inválida para a eucaristia. São matéria válida as hóstias parcialmente desprovidas de glúten, de modo que nelas esteja presente uma quantidade de glúten suficiente para obter a panificação, sem acréscimo de substâncias estranhas e sem recorrer a procedimentos tais que desnaturem o pão.
       «O mosto, isto é, o sumo de uva, quer fresco quer conservado, de modo a interromper a fermentação mediante métodos que não lhe alterem a natureza (p. ex., o congelamento), é matéria válida para a eucaristia.
       «Os Ordinários têm competência para conceder a licença de usar pão com baixo teor de glúten ou mosto como matéria da Eucaristia em favor de um fiel ou de um sacerdote»[4].
       3. Quando frequentei a catequese, os cuidados rituais para a comunhão exigiam, além do jejum desde a meia-noite até à hora de comungar, a tortura de engolir a hóstia, sem a mastigar e sem a deixar tocar nos dentes. Supunha que era para não magoar o Senhor, mas estava em oposição ao mandato de Jesus: tomai e comei e, na altura, reservada ao padre: tomai e bebei.
     Esta Carta dispensa essa tortura, mas liga a verdade e a eficácia sacramental da Eucaristia à pureza de um cereal – o trigo – e ao produto da videira, o vinho fermentado ou não.
      Urge uma alteração de paradigma na teologia dos sacramentos e da liturgia. Veio mais do mesmo. Se esquecermos as exigências universais das múltiplas faces da inculturação, continuaremos num beco sem saída.
       Temos de voltar a esta questão
       Frei Bento Domingues, O.P.
       in Público 23.07.2017



[2] Cf. Can. 924 do CIC e nos números 319 a 323 da Institutio generalis Missalis Romani, foram já explicadas na Instrução Redemptionis Sacramentum desta Congregação (25 de Março de 2004)
[4] Cf. Carta ao Perfeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, 9 de Dezembro de 2013, Prot. n. 89/78 – 44897.



MARÍA MAGDALENA Y VIRGINIA WOOLF PIONERAS DE IGUALDAD

       A las filósofas, teólogas, escritoras y artistas feministas, mis maestras y amigas, en sintonía

        No he encontrado otra forma mejor de recordar a María Magdalena en su fiesta religiosa del 22 de julio que haciendo una reflexión sobre su figura bajo la inspiración del magnífico libro La resurrección de María Magdalena. Leyendas, Apócrifos y Testamento cristiano (EVD, Estella, 2008), la teóloga Jane Schaberg, y relacionando a María Magdalena y a Virginia Woolf. La mística escéptica y subversiva de la escritora británica sirve de modelo interpretativo a Schaberg para reconstruir la emblemática figura de María Magdalena en clave feminista. ¿Es ésta una alianza espuria? Creo que no.
Las diferencias entre ambas mujeres son ciertamente notables, pero también lo son las similitudes, al menos en el imaginario colectivo. Las dos son tenidas por “trastornadas” o “enfermas”: la una, “maniaco-depresiva, la otra, posesa; ambas están exorcizadas o autoexorcizadas y confiesan momentos de visión. Las dos resultan extrañas para el círculo patriarcal y ninguna de ellas es miembro del selecto grupo de los “Apóstoles”, o al menos han sido excluidas de dicho grupo por el poder patriarcal. Coinciden hasta en la vida póstuma: Woolf y la Magdalena son figuras para el mito y la leyenda e iconos en la lucha por la emancipación.
        Desde una lectura feminista, Schaberg reconstruye las figuras de Woolf y Magdalena, hasta identificarse con ellas para crear, con su ayuda, una espiritualidad propia no excluyente conforme al ideal woolffiano: “En mi condición de mujer, no tengo patria. Como mujer no quiero patria. Como mujer, mi patria es el mundo entero”. Y Schaberg añade: “Como mujer, no tengo religión. No soy judía o cristiana o musulmana o pagana. Como mujer soy judía y cristiana, musulmana y pagana”. El deseo confesado de la teóloga feminista es haber “encontrado”  a una María Magdalena tan valiente y arrojada como Virginia Woolf o como Ethel Smyth, amiga suya, compositora inglesa y dirigente del movimiento sufragista, a quien Virginia describe de esta guisa: “Pertenece a la raza de las pioneras, de las que van abriendo camino. Ha ido por delante, y talado árboles, y barrenado rocas, y construido puentes, y así ha ido abriendo camino para las que van llegando tras ella”.    
        A través de una rigurosa investigación interdisciplinar de las fuentes cristianas canónicas de la Biblia hebrea y del Testamento cristiano, de los escritos gnósticos y de la arqueología, del arte y de las leyendas, Schabert imagina y recupera la figura de María Magdalena liberada de las imágenes negativas que sobre ella ha construido la ideología patriarcal desde los propios textos canónicos hasta la exégesis actual.
Schaber ve en los textos analizados indicios fragmentados de María Magdalena como continuadora del profetismo hebreo, iniciadora de la creencia cristiana en la resurrección, sucesora de Jesús de Nazaret y heredera de su autoridad espiritual. Los evangelios apócrifos de carácter gnóstico ofrecen elementos importantes para reconstruir la figura de María Magdalena, si bien de manera tentativa y provisional:
- Existe como personaje y como memoria en un mundo cuyos textos acusan un lenguaje androcéntrico y patriarcal.  
- Se expresa con atrevimiento y osadía en un mundo real y simbólico dominado por varones, lo que le da un relieve especial.
- Es una persona preeminente entre los seguidores y las seguidoras de Jesús, ya que posee autoridad espiritual y ejerce un liderazgo en igualdad de condiciones con los discípulos varones.
- Es presentada como compañera íntima de Jesús.
- Entra en conflicto con algunos discípulos varones por la fiabilidad de su testimonio.
- Aparece como consoladora y maestra de los demás discípulos.
- Es elogiada por su inteligencia superior.
La teología feminista cristiana recurre a María Magdalena como fuente de autoridad para llevar a cabo las transformaciones necesarias en el terreno eclesiástico y como pionera de la igualdad para generar cambios culturales y sociales que eliminen en la sociedad las discriminaciones de todo tipo: étnicas, sociales, culturales, religiosas y de género. Discriminaciones estas últimas que o suelen pasar desapercibidas o no cuentan como prioridad para su superación. 
El libro dibuja un sugerente cristianismo en torno a la figura de María Magdalena, vigente durante los dos primeros siglos en algunas iglesias y olvidado por la Iglesia patriarcal hasta hoy: un cristianismo inclusivo de hombres y mujeres bajo el signo de la continuidad profética más que bajo la sucesión apostólica; un cristianismo como posibilidad desconcertante, terriblemente vulnerable, que intentó alcanzar lo imposible. Aquel cristianismo fracasó, o mejor, lo hizo fracasar el patriarcado religioso aliado con el patriarcado político.
Pero no podemos considerar su fracaso por definitivo. Es verdad que ha durado muchos siglos, pero eso no significa caer en el fatalismo histórico que imposibilite su recuperación. Todo lo contrario. Es necesario recuperarlo, reinventarlo, reformularlo y revivirlo en nuestro momento histórico para contribuir en la lucha contra la discriminación de género en intersección con otras discriminaciones que se refuerzan y apoyan entre sí: etnia, clase, sexualidad, religión, procedencia geográfica, etc., y para trabajar por la emancipación y la igualdad en todos los terrenos.
Juan José Tamayo
22 de julio de 2017, fiesta de María Magdalena
Director de la Cátedra de Teología y Ciencias de las Religiones. Universidad Carlos III de Madrid, y autor de Otra teología es posible. Interculturalidad, pluralismo religioso y feminismo (Herder, Barcelona, 2012, 2ª ed.) y director y coautor de Religión, género y violencia (Dykinson, Madrid, 2016, 2ª ed. Próxima obra: Teologías del Sur. El giro descolonizador (Trotta, Madrid, aparecerá en noviembre).